Os apóstolos santificavam o domingo?

Ouço muitas pregações citando algumas passagens bíblicas como base de que o primeiro dia da semana também conhecido como domingo é um dia santo e inclusive os apóstolos realizavam liturgias especiais neste dia confirmando assim, sua santidade como "o dia do Senhor".

 

Vamos neste estudo analisar com mais profundidade esta situação nestas passagens bíblicas e outras.

 

Primeiramente vamos contextualizar lendo estas passagens.


"E no primeiro dia da semana, ajuntando-se os discípulos para partir o pão, Paulo, que havia de partir no dia seguinte, falava com eles; e prolongou a prática até à meia-noite”. - Atos 20:7

 

“No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que não se façam as coletas quando eu chegar.” - 1 Coríntios 16:2

 

Muitos ao lerem tais passagens compreendem que o fato pelo pão ter sido partido e as coletas coletadas nestas ocasiões específicas no "primeiro dia da semana" ou seja, "no domingo", faz de tal dia um dia santificado juntamente com o falso entendimento de que o dia da ressurreição de Cristo ter sido também nele (há um estudo desmentindo tal entendimento no canal).



 

SOBRE O ATO DE PARTIR O PÃO EM UM DIA ESPECÍFICO 

 

Examinemos também a passagem de Atos 2:46 a respeito do partir do pão:


 

"Diariamente, permaneciam unânimes no templo, partiam o pão de casa em casa, comiam com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E cada dia acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo salvos." - Atos 2:46,47

 

Vemos nesse relato que o pão era partido diariamente nas casas e se esse ato santificasse algum dia, o domingo não seria diferente dos demais.


Voltando e analisando o texto de Atos 20:7, vemos que é parte de uma narrativa corrente descrevendo vários incidentes da viagem de Paulo de volta para Jerusalém, no final da sua terceira viagem missionária. 

Se um serviço de comunhão está implícito pelo “partir o pão” em Atos 20:7, não prova nada distintivo para este dia específico, porque os discípulos partiam o pão diariamente. 

 

Vamos agora fazer uma exegese dos textos concernentes ao estudo que lemos no início.

 

Primeiramente vamos analisar o texto de Atos 20:7 no seu manuscrito do códice Leningrad.




 

Ἐν δὲ τῇ μιᾷ τῶν σαββάτων συνηγμένων ἡμῶν κλάσαι ἄρτον ὁ Παῦλος διελέγετο αὐτοῖς, μέλλων ἐξιέναι τῇ ἐπαύριον, παρέτεινέν τε τὸν λόγον μέχρι μεσονυκτίου



 

Vamos reservar a frase “mia ton sabaton”  nesta passagem de Atos 20:7 que deixei grifada e vamos para a próxima que é a de 1 Coríntios 16:2

 

κατὰ μίαν σαββάτου ἕκαστος ὑμῶν παρ’ ἑαυτῷ τιθέτω θησαυρίζων ὅ τι ἐὰν εὐοδῶται, ἵνα μὴ ὅταν ἔλθω τότε λογίαι γίνωνται



 

Encontramos então na leitura de Atos 20:7 a frase “μιᾷ τῶν σαββάτων” (mia ton sabaton) e na passagem de 1 Coríntios 16:2, a frase “μίαν σαββάτου” (mian sabatou).

Apesar de ambas terem sido traduzidas como “primeiro dia da semana” nas duas passagens bíblicas, vamos analisar seus significados.


 

Em Atos 20:7 vemos três vocábulos importantes

 

  • μιᾷ [G1520]: um (numeral não ordinal)

  • τῶν [G3588]: este, aquele, que, estes, aqueles, do(s) e etc (artigo definido)

  • σαββάτων [G4521]: sétimo dia de cada semana, sábado (plural)


 

Em 1 Coríntios 16:2 vemos dois vocábulos importantes

 

  • μίαν [G1520]: um (numeral não ordinal)

  • σαββάτου [G4521]: sétimo dia de cada semana, sábado (singular)



 

As nossas palavras-chave são então os substantivos “σαββάτων” (sabaton) e “σαββάτου” (sabatou). Que nestas passagens supracitadas apenas se diferenciam entre “genitivo neutro plural” e entre “genitivo neutro singular”.

Ambas palavras partem da raiz grega “σάββατον” que por si, tem como origem a raiz hebraica “שָׁבַת” (shabat) H-7673; que tem como significados: descanso, descansar, parar, terminar; e culturalmente conhecido como o sétimo dia da semana e dia de descanso de algumas festividades santas anuais (Levitico 23), ordenadas por Deus.


 

Como podemos ver, não há lógica gramatical alegar de que a frase “mia ton sabbaton”  e "mian sabbatou”  venha a significar como “o primeiro dia da semana”.

Tal frase apresenta maior coerência traduzida como por exemplo: “UM dos sábados”  e "em UM sábado" significando que a ação foi feita no primeiro sábado de um mês, ou/e “em um sábado”. A palavra no grego koine que indica o número da forma ordinal (1ª), seria o adjetivo “πρώτῃ” (prote) G4413.





 

Vamos ver como então é a tradução correta das passagens lidas:

 

Atos 20:7

“Em um dos sábados, ajuntando-se os discípulos para partir o pão, Paulo, que havia de partir no dia seguinte, falava com eles; e prolongou a prática até à meia-noite”. 

 

1 Coríntios 16:2

“Em um sábado, cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que não se façam as coletas quando eu chegar.” 


 

Examinando então sobre a gramática grega antiga e suas construções, não encontrei bases precedentes para tal tradução no próprio idioma em questão.

Nem mesmo os dias semanais do calendário Juliano vigente na época contia “sabbaton”.

Inclusive nem os dias semanais do calendário juliano usado pelos romanos na época faziam alguma alusão a palavra “sabbatou”. Tais eram representados pelos nomes dos deuses sol, lua, marte, mercúrio, júpiter, vênus e saturno (sequência de domingo á sábado). 

 

O que pode nos ajudar a compreender o emprego da expressão “dia da semana” na frase “mia ton sabbaton” é o fato de que primeiramente os manuscritos dos quais temos acesso nos dias de hoje não são mais os originais e sim “as cópias das cópias”. Tanto que os próprios apóstolos que escreveram tais evangelhos eram hebreus e possivelmente os escreveram no idioma hebraico/aramaico e somente Paulo pode ter escrito em grego suas cartas pois há indícios de que ele era poliglota ou seja, falava tanto o hebraico/aramaico quanto o grego. Então é lógico de que todos os evangelho estavam submetidos ao manejo da igreja católica e seus eruditos para efetuarem as cópias.

 

Então fica notório de que tal tradução “primeiro dia da semana”,  dessas frases gregas foram pretensiosamente mantidas e reforçadas pelo império católico romano sob o propósito então de dar força sobre a troca do dia santo do sábado para o domingo; o que ela nunca fez questão de esconder (conforme estudo do canal), com a desculpa do dia da ressurreição de Cristo ter sido neste dia; coisa na qual já provei biblicamente e matematicamente de que não foi (acesse o estudo).

 

O nome “domingo” que temos hoje em nosso calendário no qual representa o primeiro dia da semana é originária do latim “dies Dominicus”, que significa "dia do Senhor".

Antes do advento do cristianismo, esse dia correspondia ao dies Solis ('dia do Sol'), isto é "dia do Sol" em honra da divindade do Sol Invicto.

Por ser Roma uma cidade cosmopolita e sede de um vasto império, para lá afluíram povos de diversas culturas, com inúmeras crenças, as quais eram recebidas e reconhecidas pelos romanos e que ter-se-iam associado às crenças dos latinos, sabinos e etruscos na reverência ao primeiro dia da semana.

 

E na questão do dia da ressurreição de Cristo encontramos nos registros evangélicos de Marcos 16:2, Lucas 24:1, João 20:1 e João 20:19 a frase “mia ton sabbaton” sendo expressada como “o primeiro dia da semana” tentando dar importância de santidade ao domingo. Porém como visto, não existe base de precedência que sustente este significado. A tradução mais correta nessas passagens citadas seria então “em um dos sábados”.

Porém vemos no relato de Marcos 16:9, a citação do adjetivo grego “πρώτῃ” (prõte) - G4413, compondo a frase “πρώτῃ σαββάτου” (prõte sabbatou), ou seja, o/no primeiro sábado. Tal relato este que se encaixa contextualmente com o ocorrido pois conforme já demonstrado no estudo referente ao dia da ressurreição de Cristo. Pois nos relatos dos apóstolos, se diz que “passando o sábado” as discípulas foram no sepulcro.

 

Possivelmente forçaram uma tradução errada pois de fato não faria sentido irem ao sepulcro “passando o sábado” em outro sábado (teria passado uma semana; extrapolando os 3 dias do sinal de Jonas), porém não fizeram as contas direito. Pois como provo em meu estudo, o sábado que eles tinham  acabado de sair era o shabat do Matzot após Pessach e por isso “no primeiro sábado” após este (agora se tratando do sábado do sétimo dia), foram ao sepulcro.

 

Então não. Não existem dentro da história, ou sequer evidências  dentro dos códices de que os apóstolos guardavam ou santificavam o primeiro dia da semana.

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